Esta é uma HQ com texto e arte de minha autoria. O personagem da raça Rakunogai é co-criação minha e de Luciano Borba.
CUIDADO!!!!! Ok, não é pra tanto, mas o texto abaixo contém spoilers…
Um pocão atrasado, finalmente fui ver Homem de Ferro 2, um dos quatro filmes que eu mais esperava pra esse ano, junto com Kick-Ass, Scott Pilgrim e o remake de Fúria de Titãs.
Sem dúvida nenhuma valeu a pena.
Filmaço, não tinha como ser diferente. Depois do primeiro Homem de Ferro era só insistir nos acertos e correr pro abraço, errar a partir dali era quase impossível. Robert Downey Jr continua perfeito, sua interpretação “cool pra caraleo” de Tony Stark reinventou o personagem. Eu nunca fui muito fã do Homem de Ferro, mas depois dos filmes ele lidera meu top 5 de “heróis-que-eu-gostaria-de-ser” (não ria, todo nerd já pensou nessa lista).
O filme tem bastante ação, humor e prepara o terreno para o filme dos Vingadores em 2012, mas não chega a ser perfeito. Uma das características mais interessantes do personagem que é o alcoolismo, por exemplo, foi mal explorada. A única cena em que ele enche a cara é na festa de aniversário na mansão (antológica, não é sempre que vemos um super-herói bebaço), mas ele estava quase certo que ia morrer por envenenamento da sua bateria no peito, dá pra dar um desconto. Tony também arrisca perder seu posto de presidente da sua empresa e de defensor da América, mas no final tudo volta ao normal. Faltou uma evolução do personagem, terminar o filme como começou quase o faz desnecessário.
Outro erro foi a escalação de Scarlett Johansson no papel de Viúva Negra. Ela não convence como russa, nem como agente da SHIELD. Uma atriz mais alta e esguia com uma beleza exótica estilo Europa Oriental seria mais apropriada. Scarlett tem muita cara de americana, tanto que em três filmes de Woody Allen passados na Europa, todos seus papéis eram de turistas vindas dos Estados Unidos.
Falar dos acertos é chover no molhado, as cenas de combate ficaram muito melhores que no primeiro filme e também por não se tratar de um filme de origem já começamos com o herói em sua melhor forma em uma cena de abertura memorável que dá o tom pro resto da história. Os vilões são cada um ao seu modo um oposto e um espelho de Tony Stark. Ivan Vanko é um cientista genial, porém sombrio. Justin Hammer é um bilionário dono da empresa rival que tenta ser como Tony, porém não é nada carismático. Outro ponto forte é a aparição de War Machine, apesar de que desde o primeiro filme está se criando uma overdose de armaduras na tela, seria interessante ver o Homem de Ferro interagindo com outros tipos de seres, de preferência nada tecnológicos.
Homem de Ferro 2 não é pretensioso como um Dark Knight e dentro de sua simplicidade cumpre seu papel com maestria. É diversão pura em duas horas que servem pra matar a saudade do primeiro e amenizar nosso sofrimento pela espera de Vingadores em 2012. Depois disso o mundo pode até acabar.
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A fábrica de clássicos, NINTENDO, prometeu ainda para este ano mais um título para uma de suas séries mais famosas, The Legend of Zelda. Enquanto o game não chega, vamos revisitar alguns dos episódios mais populares e relevantes, que criaram a rica mitologia do reino de Hyrule.
The Legend of Zelda (NES – 1986)
Simplesmente um dos jogos mais revolucionários de todos os tempos, o original de 8 bits praticamente definiu sozinho a série e cimentou a base que é usada até hoje em todos os outros jogos. Aqui já temos Link explorando Hyrule para salvar Zelda das garras de Ganon, buscando a Triforce, encontrando vários itens como o bumerangue, o arco, a espada mágica, as bombas, os corações, as fadas, passando por diversas dungeons onde é preciso encontrar o mapa, a bússola, trocentas chaves e muitas, mas muitas passagens secretas. Aliás, se você jogou os outros Zeldas e lembra daquelas pequenas rachaduras nas paredes ou pedras de outra cor, indicando onde colocar uma bomba, aqui não existia indicação nenhuma de onde poderia existir um segredo. Simplesmente qualquer parede de qualquer área do jogo tinha que ser vasculhada. Sem uma história linear e já partindo de um mundo todo aberto em um mapa quadrado, The Legend of Zelda é um jogo extremamente difícil, porém único, que definiu o principal conceito da série: Explorar.
The Legend of Zelda: a Link to the Past (SNES – 1991)
A versão para SNES é uma evolução direta do jogo de nintendinho. A mecânica continua a mesma, explorar várias dungeons em um mapa quadrado composto de várias telas, porém aqui aparecem os elementos de narrativa que faltaram no primeiro jogo, além de continuar apresentando muitos elementos e pequenos detalhes que reapareceram nos jogos seguintes. Aqui conhecemos o castelo de Hyrule, a vila Kakariko, os potes para carregar poções o hookshot e o Dark World. O conceito de duplicar o cenário do jogo aparece pela primeira vez aqui como Light World/Dark World e se repete em Ocarina of Time, como passado e futuro e em Twilight Princess como Light World/Shadow World.
The Legend of Zelda: Ocarina of Time (N64 – 1998)
Se você pesquisar listas dos melhores jogos de todos os tempos, Ocarina of Time está em praticamente todas, muitas vezes em primeiro. Isto é mais do que suficiente para entender que esta obra-prima elevou a série Zelda a um nível jamais visto. Hyrule finalmente deixava de ser um mapa quadrado para se tornar um vasto mundo em três dimensões, onde você realmente se sentia parte dele. Claro que tanto sucesso não se deve apenas a uma evolução tecnológica do 3D, mas também à história e ao enriquecimento do cenário que são primorosos. Ganon se torna Ganondorf (este nome já aparecia em a Link to the Past, mas não o personagem) e deixa de ser um monstro para ser um vilão de verdade. Zelda também ganha uma participação maior na trama, deixando de ser a apenas a princesa ser salva. O mundo de Hyrule ganha outros povos, como os Gorons das montanhas e os aquáticos Zoras, que até então eram apenas monstros comuns. E por último, mas muito importante, Link finalmente deixa de ser um solitário em suas andanças por Hyrule e ganha uma companheira, a éguinha Epona, que além de ser muito carismática é uma mão na roda na hora de cruzar os cenários.
The Legend of Zelda: Twilight Princess (Wii – 2006)
Ok, TP é original de Game Cube e está muito atrás dos jogos anteriores em inovação, mas jogar com Link através dos controles de movimento do Wii é uma experiência que merece ser citada. Golpear o ar com o Remote enquanto Link executa seus combos e realmente mirar nos inimigos apontando pra tela quando se usa o arco é muito legal e torna a imersão muito maior do que nos outros jogos. Talvez um elemento novo que se repita a partir de TP é a possibilidade de jogar com outro personagem que não Link. Aqui temos a forma de lobo que muda completamente a jogabilidade. Isto pode aparecer de novo nos próximos jogos, talvez não necessariamente desta forma, mas permitindo link se transformar em outras criaturas com habilidades diferentes.
É isso aí, agora só nos resta esperar pelo novo The Legend of Zelda. Pouco se sabe sobre o novo título, apenas que deve ser anunciado na E3 deste ano e que vai usar os novos recursos do Wii Motion Plus, refinando ainda mais a sensação de empunhar a Master Sword. Olhando pro histórico da série dá pra ter confiança que vai ser um grande jogo e até seu lançamento o jeito é matar a saudade de Hyrule jogando de novo os clássicos que moldaram uma das maiores mitologias da história dos videogames.
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Marvel e DC anunciam suas novidades na C2E2, convenção de quadrinhos de Chicago, e pelo jeito é quase tudo reciclagem das mesmas ideias manjadas e personagens de sempre. Na Casa das Ideias vamos ter volta de personagem morto e com nova série , o bom e velho Capitão América; mais um grupo de Avengers, já não bastasse os Young e os Dark, agora temos os Secret Avengers, trazendo alguns ex-membros de menor expressão; A origem do Hulk Vermelho, quantas outras versões alternativas ainda vão aparecer?; One Moment in Time pelo jeito vai tentar explicar e amenizar as patacoadas de One More Day, do Aranha; e uma serie de oportunidade do Thor, pra vir no vácuo do filme que chega ano que vem.
Do outro lado das prateleiras a DC vem com volta de personagem morto, o Batman; um personagem velho mudando mais uma vez de nome e uniforme; mais séries de personagens sem importância, Elektron; edição comemorativa de Fables e final de Ex Machina, esses sim valem a pena, Vertigo e Wildstorm são os selos que trazem novidades ao mainstream americano.
Não espere nada de muito novo, as duas gigantes devem seguir a eterna estratégia de reformular e dar novo fôlego as mesmas histórias que se repetem por décadas.
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Já é sabido que a indústria de games superou a do cinema em lucratividade, tornando-se a maior indústria de entretenimento. Modern Warfare 2 bateu os recordes de arrecadação de qualquer filme em um fim de semana e por aí vai. O problema é que todo esse sucesso e dinheiro traz um ônus que há anos já atingiu as películas: ser original se torna financeiramente arriscado. Os filmes são quase todos iguais, divididos em poucas histórias (comédias românticas, vingança, pessoa-que-descobre-que-o-amor-é-mais-importante-que-dinheiro/carreira, etc.) que são recontadas de maneiras diferentes, mas no fundo são praticamente as mesmas. Os games também estão caindo nas mesmas categorias repetitivas, ainda não tanto quanto os filmes, mas quase. É difícil criticar as desenvolvedoras, apostar num jogo manjado que vai dar retorno milionário certo é mais seguro do que inventar e arriscar não ganhar nem o custo do jogo. Mas para quem cresceu acompanhando o desenvolvimento dos games desde o Atari até hoje, vendo nascer as plataformas, os RPGs, os jogos de luta, fica aquela saudade de novidade.
Saudade nas plataformas grandes porque a criatividade dos game designers não sumiu, só teve que fugir de onde está o dinheiro. Se você quer originalidade e aquela alegria de conhecer jogos surpreendentes você encontra em jogos casuais, gratuitos na internet. Meu site favorito é o www.kongregate.com, na sessão de puzzles. Ali você encontra vários jogos que vão te fazer pensar fora da caixa, recomendo o Splitter, This is the Only Level, a série Red Button, Super Stacker, Flood Fill, Wake Up the Box, Portal, Four Second Fury e principalmente a série Karoshi. Comece com o Super Karoshi que é o melhor, mas jogue todos Karoshis que vale a pena (a fase do micro system em um deles é pra queimar os neurônios). Outro site com jogos bem originais é o www.eyezmaze.com.
Caso você não conheça esses jogos eu espero que goste, corre o risco de viciar nos primeiros dias. Se tiver alguma sugestão de jogos originais, é só mandar nos comentários.
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Em meio à quietude do rancho, o velho guerreiro chamado Corbac adormecera em frente à lareira, sentado em sua cadeira de vime escuro. Lhe era comum, nas solitárias noites de inverno, descansar em frente ao fogo com as pernas cobertas por um pelego e, ali mesmo, se perder entre muitas lembranças e algumas taças de vinho. Lembranças estas da época em que vivera pela espada, desafiando a tudo e a todos, fosse por paixão, fosse por dinheiro. Fora um aventureiro em seus áureos tempos, – dos bons – dizia ele – dos bons! Lutara pela liberdade, sua e dos outros. Lutara contra monstros e tiranos. Lutara por sua vida inteira.
Até conhecer Liana.
Oh, Liana, doce Liana, que enternecera o bravo guerreiro, que lhe dera algo para viver e morrer, cuja presença lhe abalava mais do que o mais negro perigo. Após o toque de Liana a vida que nunca lhe fora cara se tornara preciosa, não poderia mais tratá-la com tamanho desapego, pois tinha que ter certeza que todos os dias acordaria iluminado pelos lilases olhos de Liana.
Então não lhe restava outro caminho se não embainhar a espada e fazer uso da riqueza acumulada em tantas aventuras para assentar-se longe dos perigos de sua vida regressa. Com Liana casou-se e teve filhos, que por sua vez também tiveram filhos. No rancho viveram por décadas e a vida lhes fora generosa. Por isso não se queixou, naquele inverno, quando a peste levou sua amada. Somente agradeceu pelo tempo que lhes fora concedido juntos, pela oportunidade que poucos tiveram: a de ser feliz. Tempos depois a desgraça acometeria sua família de novo, foi a vez de seu filho e sua nora partirem e então ele teve que ser mais forte do que nunca. Agora havia uma pequenina, porém rara razão, para que o velho guerreiro continuasse a batalha da vida: sua neta, Rhiandra.
Rhiandra, cujos olhos eram tão encantadores quanto os da avó se tornara a única motivação para que ele tocasse o rancho, tocasse a vida. Foi pela menina que ele sempre se manteve forte, temia deixá-la sozinha. Todas as noites pedia para viver mais um dia e assim o faria até quando dele, ela não precisasse mais. Nesta noite, como em muitas outras, adormecera na sala, enquanto sua neta dormia o sono dos inocentes no andar de cima do sobrado.
O apito da chaleira vindo da cozinha rompeu o silêncio e trouxe Corbac de volta para a realidade. Recém desperto, sua mente ainda atravessava a confusa bruma entre realidade e sonhos, distinguindo o real do imaginário, presente do passado. Olhou a sua volta e por um momento deteve os olhos nas trevas projetadas ao fundo da sala, o negrume parecia lhe absorver, como se ali houvesse uma força maior que o atraísse. Sacudiu a cabeça – chega de sonhos – pensou, deveria servir o chá antes que a água esfriasse. Ergueu-se com a dificuldade que se traz o peso dos anos deixando o pelego que lhe cobria as pernas cair aos seus pés, mas logo se arrependeu de não ter jogado para o lado enquanto tomava cuidado para não tropeçar. Caminhou mecanicamente até a cozinha, ainda sob efeito de um leve torpor, o ranger do piso de madeira lhe lembrou de Liana – ela sempre lhe pedia para que trocasse as tábuas mais velhas.
Quando lá chegou, um impulso elétrico lhe percorreu todo corpo, um terror que lhe despertou por completo: lembrou-se que não pusera água nenhuma para ferver e Rhiandra era muito pequena para alcançar a chaleira guardada nas prateleiras acima. Antes que pudesse esboçar alguma reação, uma voz fria, porém familiar, lhe saudou da soleira da porta com um cumprimento de seu antigo grupo:
- Pela rósea estrela, Corbac.
- Pela rósea estrela, Teneril. – respondeu o homem absorto com a visita de um fantasma de um passado distante. O fantasma, porém, era de carne e osso.
Havia mais de quarenta anos desde o último encontro e o elfo era o mesmo, exatamente o mesmo.
Não fosse pelo crepitar do fogo, o tempo pareceria estar parado naquela cozinha, pois homem e elfo permaneceram imóveis, em um silêncio solene digno de uma ocasião aguardada por décadas. O primeiro pensamento de Corbac foi Rhiandra adormecida no andar de cima. Sabia que após o último encontro com o elfo, este só viria procurá-lo após tanto tempo por uma única razão: vingança. Para disfarçar seu temor, o velho tomou a iniciativa e quebrou o silêncio:
- Não esperava vê-lo de novo, ainda me lembro de minha espada atravessada no seu coração. – seu tom era desafiador.
Meu coração? – perguntou o elfo sem se abalar com a provocação. Sem tirar os olhos do velho, desabotoou a blusa revelando uma cicatriz de um palmo do lado esquerdo do peito. Com um leve sorriso completou: – Nós dois sabemos que nunca tive um coração.
Para Corbac a visão foi como um passaporte para o passado. Lembrava nitidamente de Teneril prostrado à sua frente, derrotado após o duelo. Uma expressão de dor excruciante deformava a alva máscara que era seu rosto. O guerreiro segurava firmemente sua espada trespassada pelo tórax do elfo, o sangue escorria em abundância, era quente como o de qualquer humano.
- Eu sabia que você não havia morrido, apesar de tê-lo abandonado com um ferimento tão grave. Sujeitos como nós não caem tão facilmente. – Sorriu, tentando ganhar alguma simpatia com o comentário. A expressão séria do elfo foi um golpe no seu orgulho, havia se rebaixado sem sucesso.
- Realmente, sujeitos como nós podem suportar muito, ou podiam, no seu caso. Você era forte, posso dizer por experiência. É uma pena vê-lo neste estado, velho. Uma paródia do guerreiro que já foi um dia.
- Então me mate logo, desgraçado! – gritou Corbac extravasando a tensão, para logo baixar o tom de voz a quase um sussurro desesperado, quando lembrou da menina adormecida. – acabe com a minha vida, tenha a sua vingança.
Teneril puxou uma cadeira da cozinha e sentou-se. Com um olhar distraído e calmo de um ser que vê os anos passarem como homens vêem os dias, disse: – Primeiro prepare o chá, não pus a água no fogo por nada. Sabe como me agradava tomar chá com você e não quero perder esta última oportunidade.
- Pois bem, – disse o velho recompondo-se e abrindo o pote de ervas que estava em cima da mesa – este será então a última de muitas vezes em que tomamos chá.
O elfo pegou a xícara, seus braços esguios e graciosos em movimentos lentos e hipnotizantes eram como serpentes prontas para dar o bote. Levou-a até a boca e parou um instante.
- O anfitrião primeiro – gracejou.
- Um covarde como você sempre espera dos outros a mesma covardia. Não se preocupe, não guardo veneno em cima da mesa da cozinha – retrucou o velho para em seguida beber um gole abundante.
- Acredito que não, seria muito perigoso deixar tamanho perigo exposto ao alcance de uma criança – disse calmamente e então bebeu o chá, sem tirar os olhos do homem. Saboreava muito mais a reação de temor no rosto de seu interlocutor diante da revelação de sua ciência quanto a existência da menina, do que a bebida quente.
- Deixe-a fora disso, seu verme. – Seu rosto se contorceu em fúria e nojo. – Se ousar tocar nela eu…
- “Eu” o que? – gritou o elfo em um ímpeto de fúria e jogou a mesa com violência contra a parede, O estrondo da madeira chocando-se fez o velho saltar para trás. Foi a primeira vez que o visitante abandonava sua cruel serenidade desde que chegara. – Você não pode nada contra mim, você está decrépito e eu continuo tão ágil e mortal quanto era há quarenta anos. Vocês homens são uma piada e por isso a sua dor será maior por ter me derrotado!
Então o velho guerreiro sacou o punhal que estava preso no cinto às suas costas e golpeou, tentando se aproveitar do momento de desequilíbrio do seu rival. Apesar da sua idade o golpe foi rápido e preciso… porém não o suficiente. O elfo esquivou-se e no mesmo instante desembainhou a espada, com um leve toque de mão aproveitou o embalo do corpo do atacante e o arremessou pela porta. O velho bateu a cabeça na soleira e o estrondo foi tão alto quanto o anterior choque da mesa. Seu corpo rolou sala adentro e quando ele pensou em se levantar sentiu o sangue quente escorrendo da testa por todo rosto e o toque gélido de uma espada a lhe pressionar levemente a jugular.
- Parece que as nossas posições se inverteram – disse o elfo ofegante, não por cansaço, mas por excitação. A espada deslizou suavemente do pescoço até o coração de Corbac. – não seria irônico que este novo embate repetisse o desfecho do último, mesmo que com os papéis trocados?
- Acabe logo com isso, finalize a sua vingança.
O elfo então riu e afastou a espada do peito do velho. A risada aumentou até se tornar uma gargalhada.
- Você acha que eu esperei quarenta anos para lhe fazer o favor de acabar com essa existência ridícula? Não, meu velho amigo, a morte para você não seria um castigo, seria um alívio. Minha vingança é deixá-lo viver os míseros anos que lhe restam com o sangue da sua neta manchando a sua consciência. Sim, pois somente com os muitos anos que ela tem pela frente que poderemos quitar a dívida que você tem comigo.
- Pois bem, – disse o homem prostrado, olhos fixos para o chão – suponho que então eu deva chamá-la.
- Diga para que ela desça, e que não tente fugir. Você sabe que eu posso rastreá-la até o inferno, sua morte será muito mais lenta se eu tiver que a perseguir. – disse o elfo, apesar de surpreso com a reção de Corbac.
- Rhiandra – gritou o homem – desça já, não precisa ter medo, meu amor.
O elfo permaneceu imóvel, parecia estar concentrado ouvindo cada ruído do andar de cima. Mesmo os delicados passos da menina se dirigindo para a escada não escapavam da sua audição.
Então pelo vão entre a escada e o forro surgiu o primeiro pezinho… seguido do outro. À medida que descia, revelava sua bela e frágil aparência. Uma menina de treze anos, esguia, vestindo uma camisola de algodão, olhos grandes e lilases, tão belos e hipnóticos quanto os da avó. Teneril a observava sem desviar o olhar, como um lince.
Sua presa finalmente se revelara.
A beleza da menina era tamanha que mesmo o elfo admitiu para si que esta humana rivalizava com as da sua espécie. Era uma aura graciosa, enigmática, uma ninfa. Porém, nos anos vindouros lhe faltaria algo que a sua espécie tem como fundamental: a eterna juventude. Sabia que em pouquíssimo tempo toda esta beleza acabaria e não passaria de uma poeira a se perder no ar, como algo que nunca tivesse existido. Era com satisfação, apesar da lágrima que lhe escorria pelo rosto, que ele impediria esta galhofa do destino. Sua vingança contra o velho já estava em segundo plano, mataria a menina para eternizar esta lembrança, impedir que o futuro destruísse obra tão bela.
A risada de Corbac quebrou o silêncio e foi como um tapa no rosto do elfo que se sentiu ultrajado por tão pífia criatura destruir a magia do momento que se criara naquela sala. Olhou com desprezo para o velho caído no chão, sabia que ele era incapaz de entender a piada cruel que a vida humana representava. Para os elfos, os humanos não eram mais do que um pobre rascunho criado depois da obra de arte. Afinal eles, os elfos, eram ancestrais neste mundo e observaram o surgimento dessa raça medíocre que tentava se parecer com eles, mas eram infinitamente inferiores, tanto fisicamente quanto culturalmente. Dirigiu um olhar de desprezo para o homem que ria e se contorcia de um modo bizarro, com o corpo dobrado e as mãos viradas para dentro. O que está acontecendo com este homem? Será um truque? O elfo ficou confuso.
- Rhiandra, meu bem. – Corbac cessou as risadas – Lembra do que o vovô lhe disse sobre o dia em que um homem de orelhas pontudas viesse para nos fazer mal?
- Sim, vovô. Eu vou ser forte, vou fazer como o senhor me ensinou. – disse a menina séria, concentrada.
- Calem-se ago… Argh! – o elfo sentiu uma fisgada em todos os músculos. A mão contorcida já não podia mais segurar a espada e ele se retorceu no chão, ao lado de Corbac. – O que está acontecendo? Me expliquem, o que está menina está fazendo comigo?
Os dois inimigos caídos lado a lado, se retorcendo em posições medonhas, apenas Rhiandra estava de pé.
- Eu sabia que você viria um dia, Teneril – disse Corbac com dificuldade – teria que estar preparado. Durante os primeiros anos treinei muito, não podia perder a forma. Sabia que quando você aparecesse, a minha família toda dependeria de mim. O tempo passou e ao contrário de você eu mudei, sabia que não teria a mesma sorte em segundo embate. Precisava de um subterfúgio.
- O chá! – grunhiu o elfo com toda dificuldade que tinha para falar. – Você nos envenenou…
- Sim. Nos últimos anos eu reponho semanalmente as ervas daquele pote em cima da mesa, para que estejam sempre frescas e com poder total. Elas tem a qualidade de paralisar temporariamente os músculos de quem as ingerir. Guardei por anos nosso último chá, esperando todos dias para que você o dividisse comigo.
A menina foi até a cômoda da sala e de uma gaveta sacou um punhal com cabo de madrepérola. Finalmente chegara a noite em que ela deveria ser forte, fazer como seu avô havia lhe dito. Aqueles olhos lilases foram a última visão de Teneril.
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